Mara Regina Weiss

Meu Diário
05/06/2011 07h54
O COMEÇO DE TUDO...(A FASE DA NEGAÇÃO: TUDO VIRA UM NÃO)

 

O COMEÇ0 DE TUDO... (a fase da negação: tudo vira um não)

Que eu tenha notado foi num dos últimos dias de 2010.  Ao tomar banho, não senti uma parte do queixo, e do rosto, no lado direito...  Nem dei muita atenção, pensei ser uma daquelas “friagens” que vó e mãe sempre falam.  No outro dia continuou a tal da parestesia e no outro e no outro.  Eu estava na praia e quando voltei prá casa fui logo ao neurologista que me mandou ao dentista que me retornou ao neurologista e assim por diante. Chega- eu pensei – fui ao meu dentista de confiança (outro e bem melhor) e pedi ajuda. 1No final da confusão toda o diagnóstico da biópsia: LINFOMA.

Assim, na cara dura.  Sem aviso, ou melhor, ainda com uma confirmação que viria apenas 30 dias depois. Um exame chamado imunohistoquímico.

Chegou o tal. Confirmado. LINFOMA DIFUSO DE CÉLULAS B GRANDES.

E aí? E agora? E o filho? E o marido? E a mãe? E os irmãos? Os sobrinhos? E o amor por eles todos?  E a vida? E os sonhos de aposentar e morar na praia? De ver os netinhos do filho e da sobrinha-quase-filha nascerem prá poder cuidar? E a vontade de fazer algum curso novo, numa área diferente, trabalhar talvez até, em outra coisa, beeeem diferente, e as outras vontades? E os sonhos?

E a vida? E a vida? Aquela que eu sempre cantei do Gonzaguinha que “é bonita, é bonita e é bonita”?

O Que É, O Que É?

Gonzaguinha

Composição : Gonzaguinha

Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita...

Viver! E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...

E a vida! E a vida o que é? Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão  Hê! Hô!...

E a vida?  Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O  que é? Meu irmão...

Há quem fale Que a vida da gente é  um nada no mundo
É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo...

Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor...

Você diz que é luxo e prazer ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer...

Eu só sei que confio na moça e na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida como der, ou puder, ou quiser...

Sempre desejada por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte s saúde e sorte...

E a pergunta roda e a cabeça agita
Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita...

Tudo, quando você recebe um diagnóstico desses na verdade parece, sim, uma grandecíssima mentira. Quem falou que isso ia acontecer comigo? Eu? Logo eu? Eu que já tenho enfisema, asma, transtorno do pânico, e outras “quinhentas e cinquenta” (como eu costumo falar) dorzinhas por aqui e por ali no corpo... Isso não pode ser comigo! Isso não é definitivamente comigo!

Não. Não e não!  

Assim foi a minha fase de negação. Todo mundo tem...

(amanhã eu continuo...)


Publicado por Mara Regina Weiss em 05/06/2011 às 07h54
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Mara Regina Weiss e o site marareginaweiss.recantodasletras.com.br). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
04/06/2011 17h47
QUEM TEM MEDO DE LINFOMA???

 

QUEM TEM MEDO DE LINFOMA?

 

Eu.

Eu tinha.

Eu tenho.

Não, eu não tenho mais!

-Hummmmm... Estranho, - você deve pensar, aí com os seus botões. 


Eu tenho um linfoma. Estou cara a cara com ele, agora, olhando bem dentro dos seus seus olhos, medindo forças com ele e com uns seus comparsazinhos que insistem em aparecer prá querer dar moral (o medo, a impaciência, o cansaço).

Opa, não é que eu esteja exatamente medindo forças, com eles, mas a minha fé, sim. Eles e a minha esperança não só estão medindo forças, mas brigando de foice...

Aquela, lembra? Aquela louca chamada Esperança, a quem  o Mário Quintana se refere num poema seu  com o mesmo nome, e que após atirar-se do segundo andar do prédio vira uma meninazinha  de novo :

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

Ah... saí totalmente do assunto. Me abstraí. Mas era só prá falar que tudo que  começou a me acontecer, também foi lá no alto do décimo segundo andar do ano de 2o10, quando a minha meninazinha ainda era a louca que só pensava em se atirar do prédio. Não era ainda a Esperança.  

O que queria mesmo continuar falando é da força, da coragem e da fé, e da Es-pe-ran-ça,  que agora sim, nesta mesma hora estão aqui comigo, servindo-me de espada e escudo.

E sempre, acima de tudo, da fé em DEUS, que é o que me mantém, me provém, me alerta, me eleva, me protege, me guarda, me dá luz.

Perceber em quanto isso tudo está me ajudando a olhar o mundo de uma maneira diferente, olhar a mim mesma de uma maneira diferente, aos que me cercam também...

Se a doença debilita? Muito. Se nos deixa infelizes, cansados, sem esperanca, sem chão? Muitoooooo. Mas que por incrível que possa parecer, pelos exatos mesmos motivos isso nos fortalece e como diria uma escritora de quem gosto muito, faz com que a gente prepare “uma nova fornada de coragem”, para o que está por vir” (Ana Jácomo).

Por isso, e só por isso, talvez eu tenha resolvido escrever sobre o assunto, e você se quiser, me acompanhe... Vou tentar escrever sempre que puder.


Publicado por Mara Regina Weiss em 04/06/2011 às 17h47
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